Ernesto Areias

Mudar o sistema

A 2 de abril foi aprovada, pela Assembleia Constituinte, a constituição de 1976, que este ano faz 45 anos. 


O 25 de Abril, desencadeado pelo MFA, pôs termo a quase meio século de ditadura que deixou o país na cauda da Europa nos planos do desenvolvimento económico e social, nos da educação, ensino e conhecimento, e ainda no das infra-estruturas. 

Com a instauração da democracia foi possível colocar Portugal no mapa do mundo com o retomar das relações diplomáticas com países com quem estávamos de candeias às avessas.

A entrada em vigor da Constituição, mesmo depois de algumas revisões decorrentes da adesão à C.E., deu início a um novo ordenamento jurídico e institucional assente no desenvolvimento, na escola pública, no Estado Social e na abertura política à Europa e ao mundo.

A Constituição estabeleceu as linhas fundadoras e nucleares do que poderemos designar por III República se considerarmos que a I República correspondeu ao período de vigência da Constituição de 1911 e a II à de 1933, sistema designado por Estado Novo.

Os acordos dos partidos políticos de então, com assento na Assembleia Constituinte, pese embora as diferenças ideológicas, foram no sentido da aceitação de um regime democrático rejeitando, em absoluto, o modelo ditatorial que vinha de Salazar e Caetano.

Seria expectável, quase meio século volvido sobre a revolução de Abril, que se verificasse a consolidação e o aprofundamento do sistema democrático e tivessem sido assimilados os valores e princípios fundadores do mesmo.

Todavia, não é isso que vem sucedendo, emergindo atualmente um pouco por todo o lado forças políticas extremistas que põem permanentemente em causa os princípios fundadores do atual sistema.

Assentando a sua ação em autênticos exércitos digitais, empreendem uma campanha permanente de desinformação, falsas notícias e de desconstrução dos valores democráticos, o que não deixa de seduzir os mais débeis, culturalmente. 

Através de campanhas de ódio e de negacionismo, de desamor e combate às elites, com ataques ao conhecimento e à ciência vão difundindo a ideia de que é necessário mudar o sistema.

Ora, vivendo nós num sistema democrático, a única coisa que pretendem mudar é a própria democracia substituindo-a por um outro sem liberdade de expressão, persecutório e repressivo; um regime justicialista, com escolas de baixa qualidade em que se inclui o sistema universitário e destruição dos centros de conhecimento e ciência; um sistema de manipulação da opinião pública e de divisão dos cidadãos para de seguida os deixar sem voz.

Não deixa de ser preocupante haver, hoje, partidos que se servem do sistema democrático e da liberdade que lhe confere para a seguir o destruírem. Estranho ainda que os seus princípios sejam contra a Constituição e as suas propostas absolutamente inconstitucionais.

A sociedade atual, dividida como não tinha acontecido nas últimas décadas, assenta numa visão dicotómica, reveladora de antagonismos preocupantes.

Creio que século IV a.C. os gregos eram bastante mais civilizados do que muitos cidadãos de hoje que deveriam pedir desculpa aos professores que tiveram.

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