Luís Pereira

Património moldado

Findou um ano terrível para nós todos, não só marcado pela Covid-19, como também pela pandemia que arrasou património cultural um pouco por todo o país


No início deste ano novo é um bom momento para refletir sobre o que perdemos recentemente, algo que até podemos nunca entender ou aceitar, e refletir naquilo que se pode fazer de diferente neste ano que agora começou. 

2021 será um ano com muita agitação política, pois as eleições estão à porta, e não tarda as caras sorridentes dos pretendentes sonhadores do destino coletivo voltam a surgir em canto e esquina por todo o lado, assim como os belos discursos bem elaborados para o momento da ribalta. Precisamente nestes discursos tudo é válido, e nesse tudo entra também o património cultural que, de repente, é um bom tema para conquistar simpatia (se não mesmo votos), dando a ideia que há espaço no programa eleitoral para o património. Lembro-me que o Plano de salvaguarda do Barro Preto de Bisalhães foi promessa eleitoral nas eleições de 2017 e que muito (se não tudo) ficou por cumprir, mesmo perante a UNESCO. Precisamente nesta promessa eleitoral, a representante do pelouro da Cultura da autarquia de Vila Real não tem problemas em afirmar, em antena pública nacional, que fez tudo o que tinham proposto, inclusive formações de novos oleiros, contradizendo-se dias depois numa entrevista na antena local que afinal arrepende-se daquilo que não conseguiram fazer (nem tentado fazer, quem sabe?), culpando a pandemia da Covid-19 por aquilo que a autarquia claramente não tem vontade de fazer, com exceção da divulgação de novos produtos com marca Bisalhães que são produzidos fora da área consagrada pela UNESCO, e por oleiros não reconhecidos para ostentar esta marca patrimonial imaterial classificada. 

O património cultural surge assim moldado à necessidade de obter simpatia dos eleitores, não havendo, porém, vontade alguma de fazer seja o que for pela preservação dos marcos de identificação cultural que nos distingue e nos caracteriza, nem tão pouco valorizar a nossa herança cultural. Se nada é reconhecido como património cultural, nisto englobo a Calçada Portuguesa, a Arquitetura de uma Avenida quase centenária, uma Panificadora de Nadir Afonso, uma Calçada de uma Via romano-medieval, uma Vila Velha, um Calvário, entre outras antiguidades e “velharias” locais que enriquecem o nosso território, resta apenas dizer que «coisas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las» (Luís Vaz de Camões). 

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